quinta-feira, 26 de julho de 2007

terça-feira, 24 de julho de 2007

Bartira!



Algum instante depois de mergulhar em sua introspecção libertadora de pensamentos inconstantes seguiu para os fundos da casa. Era lá onde ficava seu canto predileto, um local onde os detalhes denunciavam os últimos tempos que ainda trazem memórias. Sentou-se na poltrona xadrez, sem dúvida a mais confortável, a mais macia e a que mais segredos trazia em seus braços e almofadas. Era bem ali que confessava para si verdades incrédulas de uma vida quase que banal em meio a tantas outras. Se não fosse por seus relatos íntimos, com toda certeza, seria uma vida despercebida e pacata.
Acomodou-se, afundou-se no conforto e respirou o ar úmido e refrescante de uma tarde de sol, nem calor nem frio, meio tempo, sublime temperatura. Árvores, pássaros e até flores cinzas podiam ser vistas dali, afinal, era seu canto predileto.
Diante de tantos pensamentos desordenados, ordem! Alguma coisa lhe atingiu o estado mínimo de interesse fazendo-lhe esquecer de tudo e deixar vivo em sua mente somente aquele novo-velho pensamento de sempre. O que mesmo estou esperando? Quando devo partir? Quando tudo isso vai passar? Eu espero. Espero pelo que? Por quem? O que estou eu fazendo? Desordem! Não adianta, por mais que tente, seus pensamentos acabam se diluindo numa espécie de auto questionamento detentor de uma falsa verdade de si. Uma cobrança interior, uma pergunta sem resposta. Um suspiro de meia satisfação silenciou seu interior.
Levantou-se. Seu canto predileto se tornara por instantes um tanto quanto incômodo. Abriu a última gaveta para ver o bom e velho poema que há tempos lhe acompanhava e assolava sua vida: No meio do caminho. Ouviu algo como se alguém lhe chamasse.

Partira dali há instantes sem ao menos terminar. Com pressa, a pedra não deixou calar. Pensou dentro de si: até que ponto chegaria? Mesmo sem saber ao certo, partiria Bartira partira. Viver a vida? Quem sabe conseguiria...


No meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

Carlos Drummond de Andrade



terça-feira, 17 de julho de 2007

Poesia Elétrica do pós-humano

"Nas palavras de Tomáz Tadeu da Silva, podemos dizer que as reflexões emergentes das comunidades virtuais encontram "de um lado, a mecanização e a eletrificação do humano; de outro, a humanização e a subjetivação da máquina. É da combinação desses processo que nasce essa criatura pós-humana a que chamamos ciborgue" (Silva, apud Venturelli). Nessa perspectiva, comunidades virtuais são espaços de mundos em que os humanos podem se dissolver como unidade, tornando-se eletricidade e encontrando criaturas híbridas em sua passagem cósmica."

VENTURELLI, Suzete. Arte: espaço_tempo_imagem. Editora Universidade de Brasília, Brasília: 2004.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Tempo. Espera. Movimente-se!


Foi pela manhã úmida e ainda gelada de uma madrugada chuvosa que seus primeiros passos percorreram a mesma rua por onde há dois anos e sete meses ele caminha antes de chegar ao trabalho. Tal travessia, que ao todo o fazem perceber sete quadras e duas calçadas, levam-no ao que ele mesmo denomina de caminhada introdutória a realidade de mais um novo-velho dia.

Cada passo o faz ver e perceber a concretude de um conjunto de construções, pessoas e semi-sentimentos que se mostram novos aos seus olhos, mas que permanecem iguais dia-a-dia. Todo mundo, como sugeriu Fernando Pessoa, sofre da "angústia das pequenas coisas ridículas", e é neste estado que ele, Aroldo, continua sua caminhada percebendo o seu todo.

Durante os próximos minutos passarão por sua ainda não-adormecida mente: imagens, cheiros, sabores, olhares, sorrisos. Como se em cada manhã ocorresse em seu interior uma (re)visão de sua vida corriqueira. Lembrou-se de Ana, de eterna namorada para eterna amiga e fiel companheira. Sentiu o cheiro da lasanha de queijos que comeu na casa da Dona Janete na vez em que viajou para Serra Iluminada, ao sul de Minas Hortaliças. Esperou o carro passar, e viu num rosto desfocado seu irmão mais velho. Mas no meio, no começo, e ao fim não se sabe ainda, pensou em Luzia. Histórias mal resolvidas acabam sempre assolando as mentes inquietas de pensamentos inconstantes. Tanto tempo já se passou. Quatro meses, 122 dias. Tempo. Tanto tempo. Qual o valor do tempo e como saber se é muito ou pouco tempo? Quanto tempo ainda falta? O que ela acha? Ela sente o tempo? O tempo mudou? O tempo fez com que fosse tarde demais? O tempo mesmo, ou Aroldo, que preso aos moldes de seu caminhar deixou o tempo passar? Parou. Não por vontade própria voluntária, mas por um bater de asas sofrido de uma borboleta que em seus últimos movimentos lutava em vão. Ao observá-la percebeu que tinha algo a resolver, não mais, poderia ser tarde. Poderia acordar e não mais caminhar pelas sete quadras de duas calçadas, poderia como a cena na qual se deparava não mais poder ser um servo do tempo. Acelerou os passou. Para trás. Voltou, recuou e saiu voando.

Luzia? Por favor, senhora, a Luzia. Histórias mal resolvidas meu rapaz, eis que tarde sempre vens, mas nem sempre assim consegues chegar. Luzia de boa moça, não se sabe ao certo, mas que o tempo soube muito bem o seu tempo, a levou daqui de perto!

quarta-feira, 11 de julho de 2007

Trailler do filme Naqoyqatsi

A vida. Qatsi
Naqoyqatsi. Vida em guerra.
Cotidiano; guerra em meio a tecnologia exarcebada de uma vida marcada pela tentativa de uma superação hipócrita egoísta. Sem controle.
O filme trata deste tema colocando em questão cenas referentes à própria vida do homem, que ao ver seu presente nas cenas, acaba por enxergar a si próprio e se questionar sobre seu modo de vida; guerra?

Aquilo que compõe nosso universo nada mais é do que aquilo que está em nossa mente, pois não há como pensar ou viver aquilo que não está contido em nossos pensamentos, desta forma, nosso mundo é nosso interior. Nosso interior, infinito de constantes ideiais organizados pela taxonomia de instabilidade de escolhas livre por um mundo sem começo nem fim; conexão - emissão - reapropriação. A cibercultura não é uma simples característica dos modelos em rede tecnológicos, e sim, um momentos social na qual estamos inseridos, uma nova cultura de vanguarda, nosso próprio EU.

O filme Naqoyqatsi, 2002, faz parte da Trilogia Qatsi - Koyanisqatsi (vida em transformação) de 1982 e Powaqqatsi (vida em deseiquilíbrio) de 1988 - e refere-se a tecnocracia de nossos dias. Com direção de Godfrey Reggio e música minimalista de Phillip Glass, a trilogia é responsável pelo relato do caminhar de nosso planeta. Com linguagem própria, sem falas ou personegans, a trilogia imerge o espectador e sugere a reflexão.