terça-feira, 24 de julho de 2007

Bartira!



Algum instante depois de mergulhar em sua introspecção libertadora de pensamentos inconstantes seguiu para os fundos da casa. Era lá onde ficava seu canto predileto, um local onde os detalhes denunciavam os últimos tempos que ainda trazem memórias. Sentou-se na poltrona xadrez, sem dúvida a mais confortável, a mais macia e a que mais segredos trazia em seus braços e almofadas. Era bem ali que confessava para si verdades incrédulas de uma vida quase que banal em meio a tantas outras. Se não fosse por seus relatos íntimos, com toda certeza, seria uma vida despercebida e pacata.
Acomodou-se, afundou-se no conforto e respirou o ar úmido e refrescante de uma tarde de sol, nem calor nem frio, meio tempo, sublime temperatura. Árvores, pássaros e até flores cinzas podiam ser vistas dali, afinal, era seu canto predileto.
Diante de tantos pensamentos desordenados, ordem! Alguma coisa lhe atingiu o estado mínimo de interesse fazendo-lhe esquecer de tudo e deixar vivo em sua mente somente aquele novo-velho pensamento de sempre. O que mesmo estou esperando? Quando devo partir? Quando tudo isso vai passar? Eu espero. Espero pelo que? Por quem? O que estou eu fazendo? Desordem! Não adianta, por mais que tente, seus pensamentos acabam se diluindo numa espécie de auto questionamento detentor de uma falsa verdade de si. Uma cobrança interior, uma pergunta sem resposta. Um suspiro de meia satisfação silenciou seu interior.
Levantou-se. Seu canto predileto se tornara por instantes um tanto quanto incômodo. Abriu a última gaveta para ver o bom e velho poema que há tempos lhe acompanhava e assolava sua vida: No meio do caminho. Ouviu algo como se alguém lhe chamasse.

Partira dali há instantes sem ao menos terminar. Com pressa, a pedra não deixou calar. Pensou dentro de si: até que ponto chegaria? Mesmo sem saber ao certo, partiria Bartira partira. Viver a vida? Quem sabe conseguiria...


No meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

Carlos Drummond de Andrade



Um comentário:

j3s disse...

Os momentos na poltrona xadrez o fazia pensar em milhares de coisas. Aqueles momentos com sua fiel companheira antes eram tão saborosos mas agora algo parecia incomodar. São tantas as perguntas e tão poucas as respostas. As certezas se esvaíram e tudo que lhe resta são aqueles momentos ímpares de paz...