
Foi pela manhã úmida e ainda gelada de uma madrugada chuvosa que seus primeiros passos percorreram a mesma rua por onde há dois anos e sete meses ele caminha antes de chegar ao trabalho. Tal travessia, que ao todo o fazem perceber sete quadras e duas calçadas, levam-no ao que ele mesmo denomina de caminhada introdutória a realidade de mais um novo-velho dia.
Cada passo o faz ver e perceber a concretude de um conjunto de construções, pessoas e semi-sentimentos que se mostram novos aos seus olhos, mas que permanecem iguais dia-a-dia. Todo mundo, como sugeriu Fernando Pessoa, sofre da "angústia das pequenas coisas ridículas", e é neste estado que ele, Aroldo, continua sua caminhada percebendo o seu todo.
Durante os próximos minutos passarão por sua ainda não-adormecida mente: imagens, cheiros, sabores, olhares, sorrisos. Como se em cada manhã ocorresse em seu interior uma (re)visão de sua vida corriqueira. Lembrou-se de Ana, de eterna namorada para eterna amiga e fiel companheira. Sentiu o cheiro da lasanha de queijos que comeu na casa da Dona Janete na vez em que viajou para Serra Iluminada, ao sul de Minas Hortaliças. Esperou o carro passar, e viu num rosto desfocado seu irmão mais velho. Mas no meio, no começo, e ao fim não se sabe ainda, pensou
Luzia? Por favor, senhora, a Luzia. Histórias mal resolvidas meu rapaz, eis que tarde sempre vens, mas nem sempre assim consegues chegar. Luzia de boa moça, não se sabe ao certo, mas que o tempo soube muito bem o seu tempo, a levou daqui de perto!
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